IA e consultoria: a ascensão das competências humanas
À medida que a inteligência artificial acelera tarefas de pesquisa, análise documental e escrita, o valor do consultor torna-se mais visível nas competências que exigem pensamento crítico, julgamento, relação e responsabilidade sobre a qualidade final do trabalho.
A inteligência artificial entrou rapidamente no quotidiano da consultoria. Hoje apoia a pesquisa, organiza informação, sintetiza documentos, testa argumentos e ajuda a estruturar primeiras versões de textos que, há poucos anos, exigiriam muito mais horas de trabalho.
Nas candidaturas a incentivos fiscais e financeiros, este impacto é particularmente evidente. Organização de documentação, critérios de elegibilidade, memórias descritivas e indicadores geram um volume de informação considerável, que a IA consegue tratar com rapidez. Ao libertar as equipas de parte do trabalho mais repetitivo, cria também espaço para uma análise mais aprofundada do projeto e das condições necessárias para o apresentar e acompanhar de forma competitiva.
Ainda assim, a rapidez de execução não garante, por si só, qualidade. Uma candidatura sólida continua a depender da compreensão do cliente, da leitura crítica do investimento, do conhecimento dos critérios de avaliação e da capacidade de transformar informação dispersa numa argumentação coerente e sustentada.
Neste novo contexto, a IA altera os métodos e os tempos de trabalho, ao mesmo tempo que reforça a importância das competências humanas que distinguem um consultor.
Mais velocidade exige melhor curadoria
Durante muito tempo, escrever bem foi uma das competências mais visíveis na consultoria, já que era necessário organizar informação, dar forma a argumentos e traduzir projetos técnicos para uma linguagem compatível com os requisitos de cada instrumento. Com a IA, esta primeira camada de escrita tornou-se mais rápida: uma equipa pode gerar uma estrutura inicial, sintetizar um regulamento ou comparar várias formulações em poucos minutos, libertando tempo para aprofundar a análise e melhorar a preparação do projeto.
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Esta aceleração representa uma oportunidade real, embora exija uma revisão cada vez mais criteriosa. Quando a IA é utilizada sem contexto suficiente, pode produzir textos formalmente corretos e bem organizados, mas demasiado genéricos, que não revelam a realidade da empresa, a especificidade do investimento ou o verdadeiro desafio técnico do projeto. Numa candidatura competitiva, um texto que poderia ser aplicado indistintamente a várias empresas dificilmente demonstra conhecimento aprofundado ou cria uma diferenciação clara perante outras operações elegíveis.
A qualidade de uma candidatura depende, por isso, da coerência entre o investimento, os objetivos, as despesas e os critérios do aviso, assim como da precisão dos dados, da consistência da argumentação e da capacidade de antecipar as dúvidas de quem avalia. Cabe ao consultor verificar se a informação está completa, eliminar generalidades, identificar os elementos que merecem maior destaque e garantir que o texto representa fielmente o projeto e o contexto em que será avaliado.
A tecnologia permite construir uma primeira base com maior rapidez, enquanto a experiência do consultor orienta as escolhas que determinam a versão final: o que deve ser dito, que evidências o sustentam e qual o nível de detalhe necessário. Desta forma, a maior velocidade de produção reforça, em vez de reduzir, a responsabilidade sobre a curadoria e a qualidade do trabalho entregue.
As soft skills ganham centralidade
À medida que as tarefas de execução se tornam mais assistidas, as soft skills assumem um papel mais relevante na qualidade do trabalho.
A escuta é uma delas. Os clientes descrevem frequentemente os projetos a partir da sua perspetiva operacional, técnica ou comercial, cabendo ao consultor interpretar essa informação, colocar as perguntas certas e identificar aspetos que ainda não foram suficientemente desenvolvidos. Uma boa candidatura começa, muitas vezes, numa boa conversa.
O pensamento crítico torna-se igualmente decisivo. A capacidade de avaliar um argumento, questionar uma despesa, detetar uma incoerência ou reconhecer a falta de evidências continua a depender de julgamento profissional. A rapidez com que a IA apresenta respostas torna ainda mais importante saber analisá-las e contrariá-las quando necessário.
A comunicação também ganha peso, sobretudo na gestão de expectativas. Nem todas as despesas devem ser incluídas, nem todos os projetos estão suficientemente maduros para avançar. Explicar estas limitações com clareza, propondo alternativas e ajudando o cliente a tomar decisões informadas, faz parte do valor da consultoria.
Por fim, permanece a dimensão da relação. A confiança constrói-se através da proximidade, da consistência e da responsabilidade assumida ao longo do processo. Embora a IA possa apoiar várias etapas, o cliente continua a esperar que o consultor conheça o projeto, antecipe riscos e responda pela qualidade do trabalho entregue.
Um perfil mais próximo do editor e do estratega
A evolução da IA altera gradualmente o centro de gravidade da profissão. O consultor passa a dedicar menos tempo a algumas tarefas de produção e mais tempo à interpretação, à curadoria e à decisão.
Assume um papel de editor ao selecionar informação, eliminar redundâncias, ajustar o tom e reforçar os argumentos. Atua como estratega quando relaciona o investimento com prioridades públicas, critérios de mérito e condições competitivas. Além disso, funciona como gestor de contexto, ligando a realidade do cliente ao aviso, ao setor, ao projeto e ao objetivo final da candidatura.
Esta evolução também influencia o desenvolvimento das equipas. Os profissionais mais jovens podem ganhar velocidade na organização do trabalho, embora precisem de aprender a questionar os outputs e a reconhecer as suas limitações. Por sua vez, os perfis mais experientes podem usar a IA para acelerar tarefas de base, concentrando a sua intervenção na validação crítica, na orientação estratégica e na formação dos colegas.
A qualidade continuará a distinguir o consultor
A utilização responsável da IA exige método: validar fontes, confirmar dados, proteger informação sensível, rever conteúdos e manter uma intervenção humana clara em todas as decisões relevantes.
À medida que estas ferramentas se tornam acessíveis, produzir texto deixa de ser um fator diferenciador. O valor estará na capacidade de produzir trabalho mais preciso, mais contextualizado e mais útil para o cliente.
Nas candidaturas, uma redação fluida terá pouco impacto se não estiver alinhada com os critérios ou sustentada por evidências. A tecnologia pode contribuir para melhorar a estrutura e acelerar o processo, enquanto a substância continuará a depender da qualidade da análise.
A IA abre espaço para um trabalho de consultoria mais eficiente, mas também eleva as expectativas. Nesse ambiente, escutar, interpretar, questionar, comunicar e assumir responsabilidade serão competências cada vez mais determinantes.
A ascensão da inteligência artificial reforça, assim, o valor das soft skills. Quanto mais assistida se torna a execução, maior é a importância do julgamento humano que orienta o resultado.
Pedro Oliveira
Senior Associate, FMA – Frederico Mendes & Associados
FMA | Frederico Mendes & Associados – Espinho | Funchal – fredericomendes.pt