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ARTIGO DE OPINIÃO

Da I&D à qualificação: como ler os próximos avisos do Portugal 2030

Portugal 2030 • 5min read
Arte em padrão azul

Os instrumentos previstos para os próximos meses apoiam momentos diferentes da trajetória empresarial. Compreender essa diferença permite escolher melhor, preparar mais cedo e evitar candidaturas desalinhadas com a natureza do investimento.

 

A aproximação de novos avisos de I&D e Inovação volta a colocar o Portugal 2030 no centro das decisões de investimento de muitas empresas. O valor de conhecer antecipadamente estas oportunidades está, sobretudo, no tempo disponível para perceber qual o instrumento mais adequado, avaliar a maturidade do projeto e organizar a informação necessária para preparar uma candidatura competitiva.

Essa análise é particularmente importante porque os avisos previstos respondem a necessidades diferentes. Entre desenvolver conhecimento, validar uma tecnologia, avançar para a industrialização ou reforçar competências internas, cada momento do investimento encontra enquadramentos distintos e exige uma demonstração própria de mérito.

Por isso, a escolha deve partir do projeto e daquilo que a empresa pretende alcançar. Quanto mais cedo forem avaliados o objetivo do investimento, a maturidade tecnológica, a natureza das despesas e a necessidade de parceiros, maior será a capacidade de preparar a candidatura de forma coerente com o instrumento certo.

 
 

Tabela 1 Os principais avisos e o momento do investimento que apoiam

InstrumentoEstadoAberturaDotaçãoAjusta-se melhor a projetos que pretendem…
STEP – Inovação ProdutivaProgramado31/08/2026

Energia:
100 M€

Digital e Biotecnologia:
107,95 M€

Fabricar, escalar ou aumentar a capacidade de produção de tecnologias críticas e reforçar cadeias de valor estratégicas.
STEP – I&D&I EmpresarialProgramado31/08/2026

Energia:
75 M€

Digital e Biotecnologia:
76 M€

Conduzir tecnologias maduras desde a I&D até à industrialização e entrada no mercado.
SIID – I&D EmpresarialProgramado30/09/202637 M€Resolver incertezas científicas ou tecnológicas e desenvolver novos produtos, processos ou serviços.
SIID – I&D DemonstradoresAberto

14/07/2026
        a
29/12/2026

12,5 M€Demonstrar, em condições próximas das reais, a viabilidade de tecnologias ou resultados de I&D.
SICE – Qualificação das PMEProgramado30/10/202620 M€Reforçar competências, organização, digitalização e fatores imateriais de competitividade.

Fonte: elaboração FMA, com base no calendário de avisos previsto para 2026 e na informação de programação disponibilizada. As datas e dotações dos avisos programados mantêm natureza previsional até à respetiva publicação formal.

 
 
STEP – Inovação Produtiva: transformar capacidade tecnológica em capacidade industrial
 

Os avisos de Inovação Produtiva enquadrados na plataforma STEP dirigem-se a empresas que pretendem criar ou expandir capacidade de fabrico associada a tecnologias críticas. Na vertente Digital e Biotecnologia, o apoio pode abranger produtos finais, componentes, máquinas específicas, matérias-primas críticas e serviços especializados ligados a deeptech e biotech. Já na componente de Energia, o foco recai sobre cleantech e tecnologias eficientes na utilização de recursos, incluindo soluções relevantes para a transição energética e para o reforço das respetivas cadeias de valor.

A lógica mantém continuidade com os apoios à Inovação Produtiva dos anteriores ciclos de programação, embora acrescente uma prioridade industrial europeia mais seletiva. Para empresas com tecnologia suficientemente madura, o instrumento pode apoiar a passagem à escala industrial, o aumento da capacidade produtiva ou a integração em cadeias de valor estratégicas. A intensidade de apoio constitui também um elemento relevante: nos avisos STEP já publicados, a taxa máxima pode atingir 70%, variando em função da dimensão da empresa, da localização do investimento e dos limites definidos pelo mapa de auxílios com finalidade regional.

• 6min read

STEP – I&D&I Empresarial: aproximar investigação, industrialização e mercado
 

O STEP – I&D&I Empresarial destina-se a operações integradas que acompanham tecnologias já relativamente maduras desde atividades de investigação e desenvolvimento até à produção e aproximação ao mercado. A modalidade de copromoção permite reunir empresas e entidades do Sistema de Investigação e Inovação, combinando competências científicas, tecnológicas e industriais em projetos orientados para tecnologias críticas nas áreas de Energia, Digital e Biotecnologia.

O elemento distintivo está precisamente nesta continuidade entre desenvolvimento e industrialização. Enquanto outros instrumentos apoiam predominantemente a criação e validação de conhecimento, o STEP – I&D&I Empresarial permite articular, numa mesma operação, a evolução tecnológica com a preparação da produção. Torna-se, assim, particularmente adequado a consórcios que já dispõem de resultados de I&D promissores e de uma estratégia credível para chegar à escala industrial e ao mercado.

 
SIID – I&D Empresarial: desenvolver conhecimento e resolver incerteza tecnológica
 

O SIID – I&D Empresarial mantém o foco na investigação industrial e no desenvolvimento experimental associados à criação de novos produtos, processos ou serviços, ou a melhorias significativas dos já existentes. Os projetos podem ser apresentados individualmente ou em copromoção e são especialmente adequados quando existe uma incerteza científica ou tecnológica clara, acompanhada por um plano de trabalhos estruturado e equipas qualificadas para desenvolver e validar a solução.

Trata-se de um instrumento com forte continuidade face ao Portugal 2020, mantendo a aposta na valorização económica do conhecimento e na colaboração entre empresas e entidades científicas. No percurso de inovação, tende a posicionar-se numa fase anterior à industrialização, sendo particularmente relevante para empresas que ainda precisam de desenvolver, testar e consolidar a tecnologia antes de avançarem para a produção.

 
SIID – I&D Demonstradores: validar a tecnologia em condições próximas das reais
 

Os projetos Demonstradores surgem numa fase posterior do percurso de I&D e destinam-se a empresas que já dispõem de resultados tecnológicos suficientemente maduros para serem testados em condições próximas das reais. O objetivo é demonstrar a viabilidade técnica e funcional de novos produtos, processos ou sistemas, aproximando a tecnologia dos potenciais utilizadores e do mercado.

O aviso encontra-se aberto até 29 de dezembro de 2026 e prevê operações individuais ou em copromoção, podendo integrar entidades não empresariais do Sistema de Investigação e Inovação. A componente de demonstração pública e divulgação junto de potenciais adotantes reforça a sua vocação para projetos que procuram transformar resultados de I&D em soluções visíveis, testáveis e mais próximas da comercialização.

SICE – Qualificação das PME: criar condições internas para competir melhor
 

O SICE – Qualificação das PME dirige-se a uma dimensão diferente do investimento empresarial: a capacitação da própria organização. O instrumento apoia investimentos imateriais ligados, entre outras áreas, à transformação digital, cibersegurança, inovação organizacional, marcas e design, propriedade industrial, certificação e sustentabilidade.

A tipologia dá continuidade aos instrumentos de Qualificação existentes no Portugal 2020, acompanhando entretanto novas exigências de competitividade associadas aos dados, à digitalização e à sustentabilidade. Será particularmente relevante para PME que pretendam profissionalizar processos, proteger conhecimento, reforçar competências internas ou criar melhores condições para desenvolver novos produtos, serviços e modelos de negócio.

 
Preparar o projeto antes de escolher o aviso
 

Os próximos meses oferecem diferentes portas de entrada para projetos empresariais, embora a escolha do instrumento deva resultar da natureza e do estágio do investimento. Uma tecnologia ainda em desenvolvimento poderá encontrar melhor enquadramento no SIID – I&D Empresarial; quando já existe uma solução que precisa de ser validada em ambiente próximo do real, os Demonstradores podem representar a etapa seguinte. Projetos preparados para industrialização poderão aproximar-se dos instrumentos STEP, enquanto necessidades relacionadas com organização, digitalização ou competências internas encontram uma lógica mais próxima da Qualificação das PME.

Esta leitura deve ser feita antes da abertura dos avisos, permitindo avaliar maturidade, estruturar parcerias, reunir evidências e ajustar o investimento às condições previsíveis de cada instrumento. A FMA acompanha as empresas desde esta primeira análise até à preparação da candidatura, procurando assegurar que o enquadramento escolhido corresponde à realidade do projeto e aos objetivos estratégicos da organização.

 
 
 
 

Bruno Carvalho

Associate, FMA – Frederico Mendes & Associados

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